domingo, 8 de março de 2015

[MENINO DE OURO]


Título: Menino de ouro
Autor: Abigail Tarttelin
Editora: Globo Livros
Ano de publicação: 2013
Páginas: 382



Sinopse
A família de Max não permitiria nenhum desvio na imagem perfeita que havia construído. Karen, a mãe, é uma advogada renomada, determinada a manter a fachada de boa mãe, esposa e profissional. Steve, o pai, é o exemplo do chefe de família presente em sua comunidade, favorito a um importante cargo público. O ponto fora da curva é Daniel, o caçula, que, para os padrões da família Walker, é “estranho”: não é carinhoso, inteligente ou perfeito como Max. Melhor aluno da escola, capitão do time de futebol, atlético, simpático, sucesso entre as garotas: Max, o primogênito, é o menino de ouro. Ninguém poderia dizer que sua vida não é perfeitamente normal. Ninguém poderia dizer que Max esconde um segredo.


Em “Menino de ouro”, somos apresentados à história de Max, um adolescente prestes a completar 16 anos que é considerado o menino perfeito. É inteligente, sensível, bonito e educado. Mas Max tem um segredo guardado a sete chaves por ele e sua família. Ele nasceu com o cariótipo 46,xx/46,xy. Isso significa que Max é intersexual (e isso não é um spoiler porque está logo na sinopse do livro).




Nessa condição, Max não é menino nem menina. Ele possui tanto o órgão sexual masculino quanto o feminino. No entanto, foi criado (e se identifica) como um rapaz. 

Apesar disso, o garoto leva uma vida como qualquer outro adolescente dessa idade. Até o dia em que acontece uma coisa horrível, inimaginável. Um fato que vai mudar drasticamente, e para sempre, a vida de Max e da sua família “perfeita”, levando-o a uma jornada em busca da sua identidade e da aceitação.




O livro é dividido em três partes e em cada uma delas acontece alguma coisa inesperada que vai mudar todo o rumo da história. O primeiro desses fatos se dá logo no início do livro (páginas 20-21) e é uma das passagens mais chocantes, tensas e tristes que já li até hoje. De verdade. É desesperador.


"É quando o choque se dissipa, e eu percebo o que está por vir. Parece que se leva muito tempo para compreender a situação. Quero dizer, coisas como essa nunca acontecem. Elas acontecem com outras pessoas, mas não com você, não comigo". (p. 21)


Escrito em primeira pessoa, o livro é narrado por seis personagens: Max, o menino de ouro; Karen e Steve, os pais protetores; Daniel, o irmão caçula, mas que tem uma inteligência e percepção incríveis; Archie, a nova médica de Max; e Sylvie, uma amiga do colégio por quem Max está interessado.

Pode parecer confusa uma história com tantos narradores, mas isso acaba se revelando um poderoso aliado que nos dá diferentes perspectivas de todas as coisas que acontecem. E não são poucas. É uma sucessão de acontecimentos e reviravoltas que faz de “Menino de ouro” uma montanha russa de emoções.
Tudo isso é mérito da autora, a inglesa Abigail Tarttelin, que tinha apenas 23 anos quando escreveu o livro. E como essa moça escreve absurdamente bem. Um ritmo ágil, fluido, objetivo e ousado. É perceptível também como ela cria personalidades consistentes para cada personagem/narrador e como muda a narrativa nas passagens de cada um deles.


“Tudo o que eu queria era ser perfeito. Parece um desejo ambicioso, mas perfeito quer dizer brando, inofensivo, agradável. Eu queria outras coisas também. Eu queria me destacar, ser inteligente, ser legal, mas tentei tanto ser todas essas coisas que não foi como se estivesse pedindo nada para ninguém. O que eu queria mesmo era ser algo mais que a soma das minhas partes masculinas e femininas.” (p. 329)


Enfim, “Menino de ouro” é um livro que nos tira da nossa zona de conforto, que incomoda profundamente e que nos faz pensar. Pensar nas convenções, no que é ser normal. Mas quem disse que ser diferente não é normal? E quem determina o que pode ser considerado diferente? Até que ponto vai a nossa aceitação e a aceitação em relação ao outro? Foram vários os questionamentos que ficaram martelando no meu juízo depois que terminei de ler a história de Max. “Menino de ouro” nos faz refletir sobre um monte de assuntos sérios e controversos, mas que são abordados de maneira sensível e emocionante.

Um livro inesquecível.


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